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Gestão Fitossanitária 4.0: A Era do Sequenciamento no Setor Florestal

Por Fernanda Pereira, Coordenadora geral da GenomaA

O setor florestal brasileiro figura entre os mais competitivos do mundo, sustentado por cerca de 10,52 milhões de hectares de florestas plantadas, dos quais cerca de 77% correspondem a plantios de eucalipto (IBÁ, 2025). Esse modelo de alta produtividade, no entanto, enfrenta desafios fitossanitários crescentes, decorrente de um cenário de intensificação da produção, com expansão para áreas anteriormente ocupadas por pastagens degradadas e sob efeito das mudanças climáticas que afetam a dinâmica solo-planta-patógeno.

Vários estudos técnicos e científicos indicam que a conversão de floresta nativa em pastagem e o uso prolongado de pastagens degradadas promovem alterações discrimináveis nas propriedades físico-químicas do solo – incluindo aumento da densidade aparente e compactação, redução de macroporosidade e de matéria orgânica total, além de alterações na fertilidade química –, que estão relacionadas a redução de indicadores microbiológicos funcionais do solo (p. ex., menor atividade enzimática e diversidade microbiana) (DORTZBACH et al., 2021; SANTOS, 2021). Em tais contextos, a estrutura do solo favorece a sobrevivência de organismos oportunistas e necrotróficos, criando ambientes predisponentes à ocorrência de doenças florestais quando um hospedeiro suscetível é introduzido (LI et al., 2022; DIXIT et al., 2024; ZHAO et al., 2025). Estudos de mudança no uso do solo no Brasil documentam esses efeitos físico-químicos, e a literatura especializada em ciência do solo associa tais mudanças a menor supressividade natural a fitopatógenos (BALOTA et al., 2015).

A literatura internacional demonstra de forma consistente que a composição da comunidade microbiana do solo exerce papel determinante na supressividade ou predisposição a doenças. Solos naturalmente supressivos apresentam enriquecimento de microrganismos antagonistas capazes de inibir patógenos por meio de antibiose e competição (MENDES et al., 2011; BERENDSEN et al., 2012). Além disso, o arcabouço conceitual dos efeitos de retroalimentação planta–solo (plant-soil feedbacks) evidencia que o histórico de uso do solo molda a estrutura microbiana e influencia o desempenho de culturas subsequentes (VAN DER PUTTEN et al., 2013). Em sistemas perenes, como plantios comerciais de eucalipto, essa herança biológica do solo pode atuar como fator predisponente quando a comunidade microbiana favorece patógenos oportunistas ou apresenta baixa diversidade funcional.

Na prática silvicultural, o diagnóstico fitossanitário permanece predominantemente reativo, fundamentado na observação de sintomas visuais, isolamento do agente etiológico em meio de cultura e posterior identificação morfológica e/ou molecular direcionada. Embora esses métodos sejam consolidados na fitopatologia clássica, apresentam limitações importantes em sistemas florestais perenes. Em doenças vasculares, como murchas e cancros, os sintomas visíveis – murcha, escurecimento do xilema, redução de crescimento e morte regressiva – manifestam-se apenas após a colonização significativa do sistema vascular. Nesse estágio, o patógeno já está estabelecido, frequentemente disseminado no talhão e, em alguns casos, associado a vetores ou práticas operacionais que ampliam sua distribuição espacial. Isso torna o manejo preventivo e o uso de práticas integradas essenciais para controle eficaz, já que medidas curativas após estabelecimento são pouco efetivas e economicamente onerosas em culturas perenes de ciclo longo como o eucalipto (ALFENAS et al., 2009; FERREIRA, 1995; FERREIRA; MILANI, 2002; FAO, 2009).

Um exemplo emblemático é a murcha associada a espécies do complexo Ceratocystis fimbriata sensu lato, na qual a manifestação sintomática indica colonização vascular já estabelecida. Dada a colonização vascular rápida e consequente obstrução dos vasos condutores, quando a murcha é observada (sintoma) o controle é limitado, pois fungicidas sistêmicos apresentam baixa efetividade em árvores adultas e a erradicação torna-se a principal medida de contenção.

Além das limitações associadas à detecção tardia baseada em sintomatologia, métodos diagnósticos fundamentados exclusivamente em isolamento em meio de cultura apresentam viés intrínseco. Apenas microrganismos capazes de crescer sob condições laboratoriais específicas – composição de meio, temperatura, tempo de incubação e atmosfera – são detectados, o que exclui parcela substancial da diversidade microbiana ambiental. Estudos comparativos entre abordagens dependentes e independentes de cultivo demonstram que técnicas baseadas em sequenciamento ambiental recuperam uma diversidade taxonômica significativamente maior do que métodos tradicionais de isolamento. Em solos, a fração cultivável frequentemente representa apenas pequena proporção da diversidade observada por metagenômica ou amplicon sequencing (STEFANI et al., 2015; HINSU et al., 2021). Revisões recentes reforçam que abordagens independentes de cultivo são essenciais para caracterizar adequadamente comunidades microbianas complexas, especialmente em ecossistemas edáficos, onde grande parte dos microrganismos apresenta exigências nutricionais ou interações ecológicas que dificultam seu crescimento isolado em laboratório (COSTA et al., 2020; GARG et al., 2024).

Dessa forma, diagnósticos baseados exclusivamente em cultivo tendem a subestimar a diversidade microbiana presente no solo e em tecidos vegetais, podendo deixar de detectar organismos relevantes para a dinâmica fitossanitária – incluindo patógenos em baixa abundância ou microrganismos associados à supressividade natural.

Do diagnóstico reativo ao manejo baseado em risco

A incorporação de sequenciamento ambiental e análise bioinformática permite transitar de um modelo sintomatológico para um modelo preditivo de gestão fitossanitária, estruturado em avaliação de risco biológico.

Essa abordagem possibilita:

  • Avaliação prévia da presença de patógenos latentes no solo;
  • Identificação de comunidades microbianas associadas a supressividade;
  • Inferência de risco epidemiológico antes da implantação;
  • Monitoramento longitudinal da dinâmica microbiana;
  • Avaliação do impacto de bioinsumos e estratégias regenerativas.

Esse paradigma converge com o conceito contemporâneo de manejo baseado em evidências (evidence-based forestry), no qual decisões silviculturais são suportadas por dados quantitativos e indicadores microbiológicos mensuráveis. Em sistemas florestais de alta intensidade produtiva, a gestão do risco biológico deixa de ser reativa e passa a integrar o planejamento estratégico.

Ao integrar sequenciamento de terceira geração, análise biológica do solo e bioinformática aplicada, a GenomaA Biotech propõe uma abordagem orientada por dados para:

  • Mitigação de risco fitossanitário;
  • Redução de falhas iniciais de implantação;
  • Aumento da uniformidade produtiva;
  • Prolongamento da longevidade dos talhões;
  • Integração de inteligência biológica ao planejamento silvicultural.

A saúde da floresta é determinada antes do plantio. Métodos convencionais detectam sintomas; o sequenciamento revela predisposição. Em um cenário de intensificação produtiva e variabilidade climática crescente, incorporar o microbioma à gestão florestal não é sofisticação tecnológica — é gestão de risco.

O sequenciamento de DNA de terceira geração transforma essa assinatura invisível em inteligência aplicada, permitindo identificar riscos latentes, compreender a dinâmica do solo e orientar decisões com base em evidências científicas. Ao integrar genômica, análise biológica do solo e bioinformática avançada, a GenomaA Biotech entrega às empresas florestais uma nova camada de previsibilidade no manejo fitossanitário.

 A floresta do futuro será manejada com dados – e o DNA é a fonte primária dessa nova inteligência.

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Referências:

BALOTA, E.B.; YADA, I.F.U.; AMARAL, H.F.; et al. Soil Quality in Relation to Forest Conversion to Perennial or Annual Cropping in Southern Brazil. R. Bras. Ci. Solo, 39:1003-1014, 2015 DOI: 10.1590/01000683rbcs20140675

BERENDSEN, Roeland L.; PIETERSE, Corné M. J.; BAKKER, Peter A. H. M. The rhizosphere microbiome and plant health. Trends in Plant Science, Oxford, v. 17, n. 8, p. 478–486, 2012.

COSTA, Oya Y. A.; RAAIJMAKERS, Jos M.; KURAMAE, Eiko E. Microbial extracellular polymeric substances: ecological function and impact on soil aggregation. Frontiers in Microbiology, Lausanne, v. 11, p. 317, 2020. 

DIXIT, M.; GHOSH, D.; MEENA, A. L. et al. Changes in soil microbial diversity under present land degradation scenario. Science of the Total Environment, v. 898, 2024.

DORTZBACH, D., PEREIRA, M. G., GONZALEZ, A. P., QUEIROZ DOS SANTOS, O. A., PICCOLO, M. DE C., & LOSS, A. (2022). Impact of forest–pasture conversion on soil physical and chemical properties. Revista Agrogeoambiental, 13(4). https://doi.org/10.18406/2316-1817v13n420211655

GARG, Deepika et al. Cutting-edge tools in soil microbiology: principles and metagenomic potential. Soil Biology and Biochemistry, Oxford, v. 187, 2024.

HINSU, Ajay T. et al. To culture or not to culture: comparison of culture-dependent and culture-independent methods for microbial community profiling. Journal of Applied Microbiology, Oxford, v. 131, n. 2, p. 643–659, 2021.

INDÚSTRIA BRASILEIRA DE ÁRVORES (IBÁ). Relatório anual da indústria brasileira de árvores. Brasília: IBÁ, 2025.

LI, Y.; ZHANG, W.; MA, B. et al. Composition and diversity of soil microbial community under land use changes. Frontiers in Plant Science, v. 13, art. 819661, 2022.

MENDES, Rodrigo et al. Deciphering the rhizosphere microbiome for disease-suppressive bacteria. Science, Washington, v. 332, n. 6033, p. 1097–1100, 2011.

SANTOS, D. N. Utilização de solos com pastagem: problema ou solução? Dissertação (M.Sc.) — Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, 2021.

STEFANI, F. O. P. et al. Culture-dependent and -independent methods capture different microbial community fractions in hydrocarbon-contaminated soils. PLoS ONE, San Francisco, v. 10, n. 6, e0128272, 2015.

VAN DER PUTTEN, Wim H. et al. Plant–soil feedbacks: the past, the present and future challenges. Journal of Ecology, London, v. 101, n. 2, p. 265–276, 2013.

ZHAO, X.; WANG, Y.; CHOUDHURY, T. et al. Effects of different land-use types on soil properties and microbial diversity. Agronomy, v. 15, n. 10, p. 2317, 2025.